O Tai Chi Chuan e Alquimia Interior

Um dos objetivos da pratica do Tai Chi Chuan é a Alquimia Interior. Processo de autotransformação que, pode-se dizer, é o cerne mesmo desta milenar pratica chinesa. Suas bases, como quaisquer praticas desse tipo, são tantricas, no sentido de “tecer uma teia” para o autoconhecimento e integração com o universo ou Tao.

AS TRÊS ETAPAS DA ALQUIMIA INTERIOR

O plano metódico, da escola Wu Liu, subdivide o trabalho psicofisiológico em três etapas, efetuadas sucessivamente em cada um dos três campos de cinábrio: partindo do campo de cinábrio inferior, em cujo seio se sublima a essência para transformá-la em alento; no seio do campo de cinábrio médio, este alento se sublima e se transforma na energia espiritual, a qual é por sua vez sublimada no campo de cinábrio superior e volta a Vacuidade (lian jing hua qi, lian qi hua shen, lian shen huan xu). Três tipos de fenômenos marcam principalmente, a realização destas três etapas: quando a essência esta sublimada já não se experimenta desejos sexuais; quando o alento esta sublimado já não se sente fome, e quando, por último, a energia espiritual está sublimada, já não se sente sono.

Esta tendência a distinguir três etapas no trabalho de alquimia interior começou a surgir desde o começo da dinastia do Song. O Chuan dao ji, um dos textos de alquimia interior mais importante dos Song, apresenta formulação análoga.

“Convém voltar o cinábrio e sublimar depois o corpo. Uma vez que o corpo esteja sublimado, se sublima o alento. Uma vez que o alento esteja sublimado, se sublima a energia espiritual, e assim se entra em união com Tao.”

É somente mais tarde, no período Yuan, que se encontra uma formulação idêntica a da escola Wu Liu.
A subdivisão em três etapas é efetuada ao redor dos três conceitos: essência, alento e energia espiritual. Esses três termos são constantemente utilizados noWeisheng shenglixue mingzhi de Zhao Bichen. É extremamente importante conhecer seu significado e suas muitas relações.

1 – A ESSÊNCIA, O ALENTO E A ENERGIA ESPIRITUAL

Para compreender bem estas três noções fundamentais em alquimia interior, é importante que recordemos a característica especifica da língua chinesa. Os caracteres chineses são sinais, emblemas, cujo conteúdo semântico pode variar a um grau mais importante que o das palavras de nossas línguas ocidentais, segundo a época ou segundo o contexto no qual são empregados. Ademais, um conceito se define raramente só, senão que se integra em um sistema de varias noções, e o laço de união entre estas noções se torna mais importante que o campo semântico do conceito mesmo. Sempre é possível, pela aproximação de dois caracteres, enriquecer o sentido de um. Parece-nos, pois, mais interessante indicar os diferentes aspectos de um conceito, mais do que dar uma definição dele. Si tomamos, por exemplo, o termo Chi que traduzimos por “alento”, veremos que designa um termo da tríade: “essência, alento e energia espiritual”, mas também pode designar a Unidade, o alento da Unidade da qual os três termos, essência, alento e energia espiritual, não são mais que três aspectos. Esta flexibilidade da língua chinesa apresenta inconvenientes, mais também fundamenta sua riqueza, sua poesia, o que permite, por uma via analógica mais que analítica, unir os diferentes elementos entre eles e estabelecer uma síntese e efetuar a resolução dos contrários.

Os três termos, essência, alento e energia espiritual, são utilizados desde a mais remota antigüidade nos textos médicos, mas não os três juntos. Ou são empregados isoladamente, ou se encontram os binômios essência-alento ou essência-energia espiritual. Isto é o que acontece notavelmente durante o período Han. No Huangting waijing se diz:

“A essência e o alento estão profundamente ocultos nas três passagens”.

Uma obra médica da mesma época ou quiçá anterior, o Nei Ching, fala freqüentemente de essência e alento.

Somente a partir da dinastia de Tang, estes três termos coexistem e descrevem a base do trabalho alquímico, como por exemplo, em um texto de Zhang Guo:

“O homem obteve o UNO com a energia espiritual, e alento e a essência”.

Da mesma maneira, o Sutra do Selo do Coração que provavelmente data da metade o do final dos Tang, começa com a frase seguinte, retomada constantemente por textos de alquimia interior:

Os remédios superiores são de três categorias, a essência, o alento, e a energia espiritual”.

Esta frase também pode ser traduzida assim:

“O remédio superior apresenta sob três aspectos: a essência, o alento e a energia espiritual.”

O qual nos parece mais justo, já que mais adiante, este mesmo texto atrai nossa atenção sobre o fato de que estas três entidades, a essência, o alento e a energia espiritual, não são de fato mais que três modalidades de um só e mesmo principio.
Um comentário a este Sutra do Selo do Coração, escrito por Lu Qianxu da dinastia do Ming, precisa de uma maneira muito interessante o conteúdo destes três conceitos:

“Os três tesouros do corpo são a essência, o alento e a energia espiritual. A intuição clara e perspicaz é a energia espiritual; aquilo que penetra por todas as partes e se move em círculos é o alento; os humores e os líquidos que embebem o corpo são a essência. Se se quer distingui-los segundo sua função, a energia espiritual controla a governa, o alimento preside a aplicação das ordens, a essência preside a transformação e a geração. Cada um tem uma função especifica segue as ordens de chefe. Se se quer distingui-los desde o ponto de vista de sua utilização, a essência pode transformar o alento, o alento pode transformar a energia espiritual. Ali aonde chega o alento chega a essência.”

2 – A ESSÊNCIA (JING)

Segundo o Shuo wen, dicionário da dinastia Han, o “jing é o arroz limpo, refinado”. O jing designava, pois, antigamente o arroz refinado, a quinta essência de uma coisa, e por isso, o esperma, germe vida. O caráter comporta a esquerda da chave do arroz, sugerindo assim o caráter nutritivo do jing. Este termo já era empregado no Zhuangzi (século IV a.C.) onde era associado à longevidade. No Nei ching, obra médica dos Han, o jing tem às vezes o sentido de essência seminal, às vezes o sentido de quintessência dos órgãos e às vezes o sentido de quintessência dos órgãos, ou às vezes o sentido de germe da vida. Assim, por exemplo, se diz no Ling shu.

“No começo, durante a concepção, o primeiro que se forma é a essência; uma vez formada a essência aparece o cérebro e a medula.”

Suwen define as relações entre a essência e o alento da seguinte maneira:

O Yang é alento, o yin é sabor. O sabor volta corpo o corpo volta ao corpo, o corpo volta ao alimento, o alento volta à essência, a essência volta à assimilação. A essência consome o alento, o corpo consome os sabores. Os sabores deterioram o corpo, o alento deteriora a essência.”

Parece que neste texto, o processo que vai da transformação da essência em alento, ou do alento em essência, corresponde com freqüência, a assimilação.

No Weisheng shenglixue mingzhi, Zhao Bichen distingue dois tipos de jing: a essência surgida da nutrição, de natureza Yin, e a essência seminal, de natureza Yang. São muito raros os textos que mencionam a essência surgida da nutrição. Recordemos que Lu Oianxu descobre a essência tanto quanto os humores, o que nos faz pensar nos sucos digestivos. Mas Zhao Bichen se aproxima das concepções medicas quando fala da essência surgida da nutrição, de natureza Yin. Com efeito, no Ling shu, esta escrito.

Se o medo e o temor não se dispersam, a essência se deteriora; se a essência se deteriora, os ossos são duros e dolorosos, e a essência desliza por si só para baixo. Esta é a razão por que as cinco vísceras que contem a essência não podem estar doentes. Se estão deterioradas, o yin será insuficiente. Se o Yin é insuficiente, não há alento, e isto conduz a morte.”

No que se refere à essência Yang, nos textos da escola Wu Liu aparece claramente uma modalidade de alento interno. Quando o alento de céu anterior se põe em movimento, se transforma em essência de céu anterior invisível, a qual se transforma em essência material de céu posterior. O trabalho consiste em evitar que a essência se converta em essência de céu posterior e em fazer de modo que a essência do céu anterior volte a converter-se em alento primordial. Este trabalho se efetua graças à respiração. Dito de outra maneira, a essência sobre a qual falamos aqui não pode ser confundida com o esperma e corresponde ao alento interno em sua forma dinâmica. Liu Huayang escreve:

“Apesar de que se fale de essência, se trata de algo imaterial e se fale de essência original porque no seio da quietude há movimento.”

Segundo Liu Huayang, quando o alento se põe em movimento para engendrar a essência original, se trata de um movimento em espiral ou em torvelinho.

3 – O ALENTO (CHI)

Segundo o Shuo wen, este termo designa os vapores que acendem. Podemos observar quatro grandes diferenças desta noção. A primeira, na grafia chinesa, é formada pelo elemento vapor e o fogo debaixo. Encontra-se na inscrição dos Zhou sobre a circulação do alento, publicada e estudada por Guo Moruo. A segunda é uma antiga grafia da dinastia dos Song. Esta grafia é empregada para designar o alento do ciclo anterior por oposição ao alento do ciclo posterior, escrito segundo a grafia corrente deste termo. A terceira grafia está unicamente constituída de elemento vapor. Era, sobre tudo, empregada no estilo caligráfico Lishu. Por último, a quarta grafia é a mais corrente e esta formada pelo elemento vapor debaixo do elemento arroz. Trata-se aqui do alento em sua função nutritiva. No texto de Zhao Bichen, se fala do alento do céu posterior, quer dizer, do alento da respiração.

Um texto anônimo incluído em Daozang, a grande coleção de textos taoistas, nos parece explicar de maneira satisfatória os diferentes equivalentes do alento.

O alento é o céu, é o que põe o em comunicação, é o vento, é o movimento,  são as transformações, é a respiração, é o ligeiro é o que ascende, o  que volta, o que dispersa, o que abre, o que brilha, é a luz. O alento pode ocultar a sombra e conter a forma.”

O alento tem, pois, um caráter móvel e aéreo. É distinto do fogo, mas gerador de calor e, em alguns contextos, poderia traduzir-se por calor psíquico. Acontece não obstante, que é assimilado ao fogo em alquimia e que o alento da respiração seja designado com o termo “fogo militar”(wuhuo).

O termo Chi designa também os vapores e através deste aspecto se relaciona com a água. Compreende-se então que o jing (essência, humores) pode ser transformado em alento ou vapor.

Ling shu da, em outra parte, a seguinte definição de Chi.

“Que e Chi?

Qibo responde: o aquecedor superior se abre e expande os sabores dos cinco cereais, que penetram nos músculos, inundam o corpo e irrigam as veias, tal e como a bruma ou o rocio úmido. É isto que se chama Chi”

No corpo humano, a alento é localizado de maneira diferente segundo os textos, as escolas e as época. Assim no Taishang jiuyao xinying miaojing, escrito por Zhang Águo, da dinastia dos Tang, se dizer:

O coração é a morada da energia espiritual, os rins são o palácio do alento”.

A maioria dos textos localiza o alento no Oceano de alento; quer dizer, no campo de cinábrio inferior. Ao contrario, segundo os textos da escola Wu Liu, o alento está encerrado no umbigo. Em Zhilun se diz:

”Ao nascer, o alento do céu anterior esta no umbigo, o alento de céu posterior na boca e no nariz.”

4 – A ENERGIA ESPIRITUAL (SHENG)

Shuo wen a define da seguinte maneira:

O sheng é a divindade celeste da qual surgiu as dez mil coisas.”

Livro das Mutações (I Ching) define assim:

Quando o Yin e o Yang são insondáveis, se fala de sheng.”

No Nei ching esta escrito:

O Sheng, inaudível e invisível, quando o coração se abre a ti, além do pensamento, a intuição cognitiva nos fazer compreender de pronto que tu és inexprimível!.”

O termo sheng é oposto a gui (designa os espíritos terrestres Yin, os demônios) e designa neste caso os espíritos celestes. Em alquimia interior, osheng, o embrião-imortal que se fabrica no próprio corpo, deve ser sempre Yang, já que se subsiste um pouco de Yin, se converte em pressa dos demônios (gui).

Sheng é, pois, a energia espiritual e psíquica, a parte divina do ser, de natureza essencialmente luminosa.

 

Nascemos da necessidade da integração entre o corpo, mente e emoção, através das diversas terapias holísticas existentes.